Resumo executivo
Catarata é a opacificação progressiva do cristalino, suficientemente densa para aumentar o espalhamento da luz e reduzir a qualidade óptica do olho. Na prática clínica, “opacidade do cristalino” é o espectro anatômico; “catarata” é a expressão clínica funcionalmente relevante desse processo. Em 2020, a catarata permaneceu a principal causa de cegueira no mundo: cerca de 17,0 milhões de pessoas estavam cegas e 83,5 milhões apresentavam deficiência visual moderada/grave por catarata. Ao mesmo tempo, a prevalência padronizada por idade da cegueira por catarata caiu nas últimas décadas, mas o número absoluto de casos continuou a subir por envelhecimento populacional e crescimento demográfico.
O fenótipo clínico dominante continua sendo a catarata relacionada à idade, com três padrões morfológicos centrais: nuclear, cortical e subcapsular posterior. Os sintomas mais úteis no interrogatório são embaçamento visual progressivo e indolor, ofuscamento, halos, piora para direção noturna, queda da sensibilidade ao contraste, desaturação de cores, diplopia monocular e, em esclerose nuclear, deslocamento miópico (“segunda visão”) em alguns pacientes. A lâmpada de fenda com pupila dilatada continua sendo o padrão clínico central; a classificação mais usada em estudos permanece o LOCS III. Densitometria do cristalino por Scheimpflug e métodos por OCT de segmento anterior são complementares para quantificar opacificação, enquanto topografia/tomografia corneana é ferramenta pré-operatória, não exame primário para “diagnosticar” catarata.
A indicação cirúrgica moderna é funcional e centrada no paciente: não deve ser restrita por um ponto de corte fixo de acuidade visual. O parâmetro decisivo é o quanto a catarata compromete atividades de vida diária, autonomia, segurança e qualidade de vida, somado ao risco anatômico do caso. Em cenários usuais, facoemulsificação com implante de lente intraocular é a técnica de escolha. ECCE permanece reservada a situações específicas, sobretudo cataratas muito densas, brancas, brunescentes, ou contextos de infraestrutura limitada. LIO monofocal segue sendo a opção mais robusta; LIOs tóricas, trifocais e EDOF exigem seleção cuidadosa, superfície ocular estável e biometria/topografia de alta qualidade.
As complicações graves são incomuns, mas clinicamente decisivas. Em registros muito grandes, ruptura de cápsula posterior ocorre em torno de 1,1% das cirurgias; endoftalmite aguda pós-operatória gira tipicamente em torno de 0,04% a 0,06%; edema macular cistoide em base populacional recente foi 0,8%; descolamento regmatogênico de retina ocorreu em aproximadamente 0,21% dentro de 1 ano; e opacificação capsular posterior é a complicação tardia mais frequente, atingindo 12,3% no conjunto e aumentando progressivamente com o seguimento. O prognóstico visual costuma ser excelente quando não há doença macular, neuropatia óptica ou intercorrência intraoperatória, mas piora de forma importante quando há comorbidade retiniana, PCR, edema macular, endoftalmite ou hemorragia supracoroidiana.
Definição e epidemiologia
Do ponto de vista clínico, catarata é a perda de transparência do cristalino suficiente para degradar a qualidade da imagem retiniana. Essa definição parece simples, mas os números epidemiológicos variam muito conforme o desfecho usado: “qualquer catarata” em estudo populacional fotográfico não é a mesma coisa que “catarata visualmente significativa”, “catarata operada”, “cegueira por catarata” ou “deficiência visual por catarata”. Por isso, prevalência anatômica, prevalência funcional e carga global de cegueira não devem ser comparadas como se fossem equivalentes.
Na síntese epidemiológica global mais robusta recente, elaborada pela colaboração da Organização Mundial da Saúde/GBD-Vision Loss Expert Group e publicada em 2024, a catarata respondeu em 2020 por 17,0 milhões de cegos e 83,5 milhões de pessoas com deficiência visual moderada a grave. Isso correspondeu a 39,6% de toda a cegueira global e 28,3% da deficiência visual moderada/grave. No período de 1990 a 2020, o número absoluto de pessoas cegas por catarata aumentou 29,7%, enquanto a prevalência padronizada por idade da cegueira por catarata melhorou 27,5%, mostrando simultaneamente progresso terapêutico e insuficiência de cobertura cirúrgica frente ao envelhecimento mundial. As maiores contribuições relativas da catarata para a cegueira permaneceram em regiões como Sul da Ásia e Sudeste Asiático/Oceania.
Quando se mede “qualquer catarata” em estudos populacionais e revisões sistemáticas, os números são naturalmente maiores do que os da carga funcional de cegueira. A grande revisão sistemática global de Hashemi e colaboradores estimou prevalência padronizada por idade de 17,2% para “qualquer catarata”, com estimativas separadas de 8,05% para cortical, 8,22% para nuclear e 2,24% para subcapsular posterior; os autores enfatizaram heterogeneidade importante entre regiões, métodos de fotografia, sistemas de graduação e composição etária das amostras.
A relação com a idade é muito forte. No estudo mais atualizado focado em idosos, com dados do GBD 2021 para 204 países e territórios, a taxa global padronizada por idade de catarata em pessoas com 60 anos ou mais foi 7.748,5 por 100 mil em 2021. A carga foi maior em mulheres do que em homens, com 8.300,3 por 100 mil nas mulheres versus 7.080,4 por 100 mil nos homens. O gradiente etário foi monotônico: nos homens, a taxa subiu de 2.966,6 por 100 mil entre 60–64 anos para 18.753,8 por 100 mil em ≥95 anos; nas mulheres, de 3.681,7 para 21.049,3 por 100 mil nas mesmas faixas. Em termos geográficos, Sul da Ásia, Oceania e África Subsaariana Ocidental concentraram as maiores taxas, enquanto regiões de alto SDI tiveram as menores.
Para incidência, a evidência contemporânea é mais heterogênea do que para prevalência, porque a cirurgia “remove” casos incidentes do denominador clínico e porque os critérios diagnósticos variam entre coortes. Ainda assim, as melhores coortes longitudinais mostram uma subida muito acentuada com a idade. No AREDS, a incidência cumulativa em 10 anos foi de 43,6% para qualquer catarata, 23,1% para catarata nuclear, 22,0% para cortical, 13,1% para subcapsular posterior e 26,8% para cirurgia de catarata, com aumento significativo em todas as categorias conforme o avanço etário e incidência mais alta em mulheres para catarata nuclear, cortical, qualquer catarata e cirurgia. Em outras palavras: a incidência global padronizada “única” é incerta, mas o comportamento biológico é consistente — idade é, de longe, o eixo dominante.
Sinais, sintomas e classificação
O quadro clínico típico é de perda visual progressiva e indolor. O sintoma mais comum é embaçamento visual; logo atrás vêm ofuscamento, halos, piora em iluminação intensa, maior desconforto para direção noturna, diplopia monocular/poliopia, desaturação de cores e dificuldade crescente para tarefas de baixo contraste. Em esclerose nuclear, é clássico ocorrer miopização progressiva, que às vezes melhora temporariamente a leitura de perto; em catarata subcapsular posterior, a queixa desproporcional de glare e piora em ambientes iluminados costuma aparecer mais cedo do que a perda de acuidade medida em tabela.
No exame, a lâmpada de fenda com e sem dilatação pupilar continua sendo o núcleo do diagnóstico. A catarata nuclear se expressa por aumento de densidade e cor do núcleo, com amarelecimento e, nos casos avançados, brunescência; a cortical por vacúolos e espículas/opacidades em “raios” periféricos que avançam para o eixo visual; e a subcapsular posterior por granulações ou placas logo à frente da cápsula posterior no eixo visual, geralmente muito sintomáticas. Em termos de graduação, o sistema LOCS III continua sendo o padrão de pesquisa mais difundido, avaliando opalescência nuclear (NO) e cor nuclear (NC) em escala decimal de 0,1 a 6,9, e catarata cortical (C) e subcapsular posterior (P) em escala de 0,1 a 5,9.





| Subtipo | Local anatômico predominante | Sintomas que costumam dominar | Achado mais útil na lâmpada de fenda | Graduação/quantificação mais usada | Relevância cirúrgica |
|---|---|---|---|---|---|
| Nuclear | Núcleo do cristalino | Borramento progressivo, redução de contraste, miopização, perda de nitidez à distância | Esclerose/opalescência central, amarelecimento ou brunescência | LOCS III: NO/NC 0,1–6,9; densitometria nuclear por Scheimpflug ou OCT | Níveis altos de densidade costumam prever maior energia de faco |
| Cortical | Córtex, geralmente periférico com progressão centrípeta | Glare, flutuação visual conforme iluminação, piora quando as espículas cruzam o eixo | Opacidades em cunha/raios, vacúolos corticais | LOCS III: C 0,1–5,9; quantificação por imagem em estudo | Pode induzir sintomas relevantes com acuidade ainda relativamente preservada |
| Subcapsular posterior | Região subcapsular posterior central | Glare desproporcional, piora em luz forte, dificuldade para leitura e visão próxima, direção noturna | Placa/granulações centrais posteriores no eixo visual | LOCS III: P 0,1–5,9 | Frequentemente torna-se cirúrgica mais cedo pelo impacto funcional |
| Catarata densa/madura/branca | Estágio avançado, mais descritivo do que “tipo” etiológico | Queda visual acentuada, reflexo vermelho pobre ou ausente | Cristalino difusamente branco/opaco, maior obscuração do polo posterior | Graduação descritiva; a densidade objetiva torna-se tecnicamente mais importante | Maior complexidade, pior visualização intraoperatória e maior risco se a cirurgia for retardada |
Base de evidência: morfologia clínica, critérios de graduação LOCS III e correlações imagem-cirurgia derivam de diretrizes e estudos de graduação/quantificação do cristalino.
A densitometria do cristalino agrega objetividade. Em catarata nuclear, a densidade máxima por Scheimpflug correlaciona-se linearmente com a acuidade visual corrigida pré-operatória, com a energia cumulativa dissipada (CDE), com o tempo de ultrassom e com o volume de fluido utilizado durante a facoemulsificação; no estudo de Gupta e colaboradores, a correlação com CDE foi particularmente forte para densidade máxima nuclear por Scheimpflug (r = 0,847). Em catarata cortical, quantificações por imagem também se correlacionam com CDE. Já a OCT de segmento anterior de varredura mais longa parece superar a limitação do Scheimpflug em núcleos muito densos, mantendo boa repetibilidade e correlação com LOCS III. Em outras palavras, densitometria é útil sobretudo para objetivar dureza nuclear e para antever “phacodynamics”; ela não substitui o exame clínico, mas o refina.
A topografia e a tomografia corneanas ocupam outro papel. Elas não são exame primário para diagnosticar opacidade do cristalino, porque medem curvatura, regularidade e astigmatismo corneanos; porém, são decisivas no pré-operatório quando há córneas muito planas/curvas, irregularidade, astigmatismo relevante, cirurgia refrativa prévia ou planejamento de LIO tórica/premium. Em candidatos a LIO tórica, as recomendações da European Society of Cataract and Refractive Surgeons explicitam topografia/tomografia como parte do pacote obrigatório de avaliação.
Fatores de risco e determinantes
Idade é o principal fator de risco, e os dados atuais mostram que ela atua como o maior motor epidemiológico do fardo global. A subida do risco com a idade é tão intensa que, em análises de período-coorte, o envelhecimento populacional explica mais da expansão da carga do que mudanças epidemiológicas finas. O ônus é maior em mulheres, tanto por efeito biológico/hormonal ainda não totalmente esclarecido quanto por maior sobrevivência e barreiras históricas de acesso cirúrgico em muitas regiões.
Genética tem peso real, não marginal. A maior meta-análise GWAS contemporânea, reunindo 121.725 casos e 821.856 controles multiancestrais, identificou 101 loci independentes associados à catarata relacionada à idade, 57 deles novos. O trabalho também encontrou enriquecimento biológico em vias específicas e sugeriu associação causal entre diabetes tipo 1 e catarata por randomização mendeliana, além de reforçar um marcador substituto de exposição UV como determinante de risco. Em linguagem prática: há forte arquitetura poligênica de suscetibilidade, mas o fenótipo continua dependente da interação com exposições ambientais e metabolismo sistêmico.
Entre os fatores metabólicos e sistêmicos, diabetes é dos mais consistentes. Revisões sistemáticas em diabetes tipo 2 mostram risco aproximadamente duplicado de catarata em comparação com não diabéticos; a duração do diabetes e a retinopatia diabética prévia aumentam adicionalmente o risco clínico e o risco perioperatório. Hipertensão tem associação mais modesta, porém consistente, com risco aumentado de catarata em coortes (RR ~1,08) e associação ainda mais forte em desenhos caso-controle/transversais, com sinal mais marcado para subcapsular posterior. Síndrome metabólica, em meta-análise de 10 estudos com 379.464 participantes, associou-se a aumento de 28% do risco. Obesidade, por sua vez, tem associação positiva com catarata relacionada à idade, sobretudo cortical e subcapsular posterior, mas não de forma igualmente consistente para catarata nuclear.
Tabagismo continua sendo um dos fatores modificáveis mais sólidos. Meta-análises observacionais mostram aumento do risco global de catarata entre fumantes, com associação particularmente robusta para catarata nuclear; o excesso de risco diminui após cessação, mas não some rapidamente. Corticosteroides crônicos — sistêmicos, inalatórios, perioculares ou intraoculares — estão classicamente associados a catarata subcapsular posterior. A exposição UV também permanece causalmente e epidemiologicamente implicada, sobretudo via estresse oxidativo lenticular. Para radiação ionizante, há evidência suficiente para ter reduzido o limiar de preocupação radiobiológica do cristalino, com a ICRP considerando aproximadamente 0,5 Gy como limiar para catarata radioinduzida; as formas mais ligadas à exposição ocupacional tendem a ser cortical e subcapsular posterior. Trauma ocular é fator bem estabelecido na prática e na literatura clínica, mas a quantificação epidemiológica agregada é menos uniforme do que nos fatores metabólicos e ambientais.
É importante registrar, contudo, que nem toda associação observacional “fecha” de forma idêntica em genética causal. Uma análise por randomização mendeliana em 2023 não encontrou associação robusta entre risco de catarata e predisposição genética para T2D, pressão arterial, IMC, tabagismo ou álcool em um modelo específico, enquanto outros estudos mendelianos encontraram sinal causal de T2D em populações do Leste Asiático e o GWAS meta-analítico de 2024 reforçou diabetes tipo 1 e UV. Tradução clínica: diabetes, tabagismo, obesidade, hipertensão e UV continuam sendo tratados como fatores de risco clínicos reais, mas a força causal exata de cada um pode variar entre populações, desenho do estudo e fenótipo de catarata avaliado.
Avaliação diagnóstica e decisão cirúrgica
A avaliação diagnóstica deve responder a quatro perguntas: há catarata; ela explica a queixa; existe patologia concorrente limitando o ganho visual; e a anatomia permite cirurgia segura? O núcleo do exame continua sendo anamnese funcional, refração, acuidade visual, biomicroscopia do segmento anterior, tonometria e exame de fundo quando a mídia permite. Nos casos em que os sintomas de glare e baixa qualidade visual são maiores do que a acuidade em tabela sugeriria — cenário clássico em PSC e em algumas cataratas iniciais — o julgamento clínico não deve ficar refém apenas da Snellen.
Para o pré-operatório biométrico, as recomendações do National Institute for Health and Care Excellence são muito claras: biometria óptica é o método de primeira escolha; ultrassom fica reservado quando a biometria óptica não é possível ou não é confiável. Ceratometria é mandatória; topografia corneana deve ser considerada em córneas anormalmente planas ou curvas, irregulares, em astigmatismo significativo, em cirurgia refrativa prévia ou quando a ceratometria for imprecisa. Para cálculo de LIO em olhos sem cirurgia refrativa prévia, o NICE recomenda Haigis ou Hoffer Q para comprimentos axiais <22 mm; Barrett Universal II ou SRK/T para 22–26 mm; e Haigis ou SRK/T para >26 mm. Também recomenda aproveitar 50% do erro refracional do primeiro olho ao calcular o segundo, quando apropriado.
A decisão de indicar cirurgia não deve ser baseada em um limiar fixo de acuidade visual. O NICE recomenda explicitamente que a referência para cirurgia se fundamente em discussão com o paciente sobre impacto na visão e na qualidade de vida, e afirma que o acesso à cirurgia não deve ser restringido apenas por acuidade visual. Isso está completamente alinhado com a revisão da American Academy of Ophthalmology e com a literatura moderna: a catarata “operável” é aquela que compromete função, segurança, independência ou expectativa refracional de forma clinicamente relevante. Há ainda um segundo princípio prático: quando o caso está caminhando para catarata muito densa, atrasar pode elevar o risco intraoperatório.
O fluxograma acima sintetiza a decisão contemporânea: confirmação morfológica, atribuição funcional, biometria de alta qualidade, estratificação de risco e decisão compartilhada entre paciente e cirurgião, sem reduzir a indicação a um número isolado de acuidade visual.
Tratamento e técnica operatória
Não existe tratamento farmacológico comprovadamente capaz de reverter catarata relacionada à idade. Medidas conservadoras podem atenuar sintomas por algum tempo — especialmente ajuste refracional, melhor iluminação e adaptação comportamental —, mas não modificam a história natural da opacificação. A única terapia definitiva para catarata clinicamente significativa continua sendo a remoção cirúrgica do cristalino opacificado e sua substituição por uma lente intraocular.
| Técnica | Como é feita | Quando tende a ser preferida | Pontos fortes | Limitações típicas |
|---|---|---|---|---|
| Facoemulsificação com LIO dobrável | Incisão pequena, fragmentação ultrassônica do núcleo, aspiração cortical e implante de LIO | Padrão na maior parte dos centros modernos | Reabilitação rápida, menor indução astigmática e melhor recuperação visual precoce | Exige equipamento, curva técnica e pode ser mais desafiadora em núcleos muito duros |
| MSICS | Extração manual do núcleo por túnel escleral/autosselante, sem facoemulsificador | Cataratas densas, grande volume cirúrgico, cenários de menor recurso | Menor dependência tecnológica, útil em cristalinos duros | Comparações com faco dependem muito do contexto e da experiência; perfil refracional costuma ser menos refinado |
| ECCE | Extração extracapsular por incisão maior, geralmente com suturas | Casos selecionados, catarata muito avançada, anatomia complexa ou falta de infraestrutura | Técnica robusta e historicamente consolidada | Recuperação mais lenta, mais astigmatismo induzido e pior perfil de complicações/recuperação do que faco em contextos comparáveis |
Base de evidência: as comparações mais estáveis mostram facoemulsificação superior à ECCE em acuidade visual e complicações; MSICS permanece técnica relevante sobretudo em cataratas densas e ambientes de alta demanda/baixo recurso.
Na técnica moderna, a facoemulsificação com implante de LIO em saco capsular é o padrão. Para anestesia, o NICE recomenda anestesia tópica ou sub-Tenon, com ou sem complemento intracameral; peribulbar fica como alternativa quando as opções anteriores são contraindicadas; retrobulbar não deve ser rotina. O guideline também é conservador em relação à cirurgia assistida por laser de femtossegundo, sugerindo seu uso apenas no contexto de ensaio clínico randomizado comparativo com faco por ultrassom. Cirurgia bilateral simultânea pode ser considerada em pacientes de baixo risco ou em situações especiais de anestesia geral, mas sempre com discussão explícita de riscos binoculares.
A seleção da LIO deve partir do alvo refracional e do perfil do paciente. LIO monofocal continua sendo a opção mais previsível e com menor custo óptico. LIO tórica deve ser considerada quando há astigmatismo corneano pré-operatório de pelo menos 1,0 D, com evidência mais forte acima de 2,0 D. Já as lentes “premium” exigem leitura crítica. Meta-análises recentes mostram que trifocais aumentam a independência de óculos e entregam melhor visão de perto; EDOF e monofocais aprimoradas tendem a melhorar mais a visão intermediária, com perfil óptico geralmente mais tolerável. Em contrapartida, o NICE permanece conservador e não recomenda ofertar LIO multifocal de rotina para cirurgia de catarata, revelando que ainda há divergência entre guideline de saúde pública e entusiasmo refrativo. A conclusão prática é simples: LIO premium não deve ser vendida como “upgrade automático”, mas indicada só quando topografia, biometria, superfície ocular e expectativa do paciente realmente sustentam a escolha.
No manejo perioperatório, o pré-operatório deve incluir biometria/constantes revisadas, escolha explícita do alvo refracional, checklist inspirado no protocolo da WHO e antissepsia rigorosa. Para profilaxia de endoftalmite, o NICE recomenda cefuroxima intracameral; a evidência europeia histórica mostra redução em torno de cinco vezes da endoftalmite com esse passo. No pós-operatório, esteroides tópicos e/ou AINEs são recomendados para inflamação e prevenção de edema macular cistoide, com associação especialmente relevante em diabéticos e uveíticos. O guideline também dispensa revisão presencial obrigatória no primeiro dia após cirurgia não complicada, desde que existam processos claros para detectar e encaminhar complicações; em paralelo, a síntese da OMS sobre qualidade em cirurgia de catarata destaca revisão por volta de 4–6 semanas para medir acuidade visual final e decidir correção refracional.
Complicações e prognóstico visual
As complicações da cirurgia de catarata precisam ser lidas em contexto. Registros nacionais e multicêntricos, em sua maioria de países de alta renda e predominantemente com facoemulsificação, tendem a mostrar taxas muito baixas; séries de treinamento, cataratas brancas/maduras, olhos com pseudoesfoliação, miopia alta, uveíte, vitrectomia prévia ou diabetes proliferativo podem produzir incidências substancialmente maiores. Portanto, o número correto não é “um único percentual”, e sim um intervalo dependente de case-mix.
| Complicação | Momento típico | Incidência em grandes bases | Fatores de risco principais | Manejo prático |
|---|---|---|---|---|
| Ruptura de cápsula posterior e perda vítrea | Intraoperatório | 1,1% em 2.853.376 cirurgias no registro europeu; queda de 1,44% para 0,60% entre 2008–2018 | Idade mais alta, sexo masculino, glaucoma, retinopatia diabética, pupila pequena, catarata branca, opacidades corneanas, pseudoesfoliação | Interromper tração no vítreo, vitrectomia anterior adequada, limpeza segura do material lenticular e replanejamento da LIO |
| Hemorragia supracoroidiana aguda | Intraoperatório, rara | 0,03% (~1 em 3.500) em 709.083 operações | PCR, PIO elevada, glaucoma, idade avançada | Fechamento rápido da ferida, estabilização da pressão ocular, decisão individual sobre prosseguir/interromper e suporte vítreo-retiniano |
| Endoftalmite aguda pós-operatória | Dias a semanas | Geralmente 0,04–0,06% em grandes séries; menor com antibiótico intracameral | Quebra de assepsia, inflamação, imunossupressão/uveíte, diabetes em alguns cenários | Emergência: cultura quando possível, antibióticos intravítreos precoces e avaliação retiniana urgente |
| Edema macular cistoide pseudofácico | Semanas | 0,8% em 3,1 milhões de cirurgias no IRIS, com início médio ~6 semanas | Diabetes/retinopatia diabética, uveíte, retina prévia vulnerável | Esteroide tópico + AINE; escalonar em casos persistentes ou de alto risco |
| Opacificação capsular posterior | Meses a anos | 12,3% no conjunto; 2,3% em 6 meses, 4,4% em 1 ano, 19,7% em 3 anos, 34,0% em 5 anos, 46,9% em 9 anos | LIO hidrofílica, miopia alta, AL >26 mm, menor idade, vitrectomia prévia | Capsulotomia Nd:YAG quando sintomática/visualmente significativa |
| Descolamento regmatogênico de retina | Meses a anos, risco maior no início | ~0,21% dentro de 1 ano em pacientes >40 anos no IRIS | Degeneração lattice, miopia alta, sexo masculino, idade mais jovem, PCR/vitrectomia anterior | Encaminhamento retiniano urgente para laser, retinopexia pneumática, buckle ou vitrectomia conforme o caso |
Base de evidência: incidências e fatores de risco vêm dos grandes registros IRIS Registry, EUREQUO e do UK NOD; a profilaxia antibiótica intracameral baseia-se em evidência europeia consolidada e recomendações atuais.
Do ponto de vista prognóstico, o melhor modelo mental é este: a cirurgia de catarata tem prognóstico excelente para o olho estruturalmente saudável, mas não “cura a retina”. Diretrizes europeias de qualidade sugerem que, em olhos sem comorbidade ocular, é razoável esperar acuidade visual corrigida final de 0,5 decimal (aproximadamente 20/40 ou 6/12) ou melhor em pelo menos 97% dos casos. Quando há edema macular cistoide, o ganho visual ainda costuma ser bom, mas inferior ao grupo sem complicação; no IRIS, olhos com CME tiveram média aproximada de 20/30 em 12 meses versus 20/25 nos demais. O efeito prognóstico das complicações graves é marcante: ruptura capsular piora toda a cadeia cirúrgica, hemorragia supracoroidiana aumentou cerca de 16 vezes o risco de perda visual no NOD, e endoftalmite continua sendo evento de baixo percentual, porém de altíssimo impacto funcional.
Resumo final
A catarata contemporânea deve ser entendida como um contínuo entre anatomia lenticular, óptica ocular e incapacidade funcional. A melhor evidência disponível confirma quatro pontos com alto grau de confiança. Primeiro: a catarata continua sendo a principal causa global de cegueira evitável, apesar de avanços expressivos na cirurgia. Segundo: o fenótipo clínico relevante ainda gira em torno de três padrões maiores — nuclear, cortical e subcapsular posterior — e a diferença entre eles importa muito na queixa, no exame e no timing cirúrgico. Terceiro: idade, diabetes, tabagismo, obesidade, hipertensão/metabolismo, UV e suscetibilidade genética formam o eixo etiológico dominante, embora a força causal exata varie entre métodos observacionais e genéticos. Quarto: a cirurgia é extraordinariamente efetiva, mas seu sucesso depende menos do “ato técnico isolado” e mais da combinação entre seleção adequada do caso, biometria correta, escolha apropriada da LIO, antisepsia, prevenção de CME/endoftalmite e tratamento rápido das complicações.
Em termos estritamente práticos, o melhor paradigma não é “operar quando a tabela Snellen cair”, e sim operar quando a opacificação do cristalino tiver plausibilidade anatômica, correlação funcional e benefício esperado superior ao risco do caso. Lâmpada de fenda continua soberana; densitometria ajuda a objetivar dureza e planejar energia; topografia/tomografia é indispensável em astigmatismo irregular, cirurgia refrativa prévia e LIO premium; e o julgamento cirúrgico deve ser individualizado. Em olhos sem comorbidades relevantes, o prognóstico visual é, na maioria das vezes, excelente. Em olhos com retina comprometida, cápsula frágil, pseudoesfoliação, miopia alta, uveíte ou diabetes complicado, a boa cirurgia continua possível — mas só quando o pré-operatório é intelectualmente honesto, tecnicamente meticuloso e prognosticamente realista.
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